Das Cotas

Onde os direitos dos cidadãos são respeitados não se fala de cotas ou privilégios.

Cotas nas Universidades de novo. Li manifestações em blogs sobre a notícia “46% dos cotistas zeram em vestibular“.

Para quem quiser seguir a discussão, o Tupi na Taba mostra uma entrevista publicada no Estadão com o economista Marcelo Paixão, que é a favor de cotas. E o blog do Jônatas também se manifestou sobre o assunto.

Todos os cidadãos têm o mesmo direito de freqüentar a universidade pública e gratuita, afinal “ricos” e “pobres” pagam os impostos que sustentam essas instituições. O ingresso nessas universidades é feito por provas, e ganha a vaga quem acerta mais perguntas. Um aluno elimina o outro.

Se as poucas vagas das Universidades Públicas são ocupadas por alunos vindos das escolas particulares - que abrigam a menor parte dos estudantes do país - algo está errado, e certamente não é com o vestibular.

No post do Cris Dias - que declarou ser avesso as cotas - li o seguinte comentário, feito por Carlos Aquino: “Faculdade Pública para Alunos da rede pública.
Faculdade Particular para quem tem grana.”

Se o sistema de educação fundamental e de ensino médio oferecido pelo governo está FALIDO - falar de cotas prova que temos um sistema de educação falido, que não prepara o aluno para ingressar em um curso superior-, por que não abortar essa discussão sobre cotas em universidades e PEDIR cotas em colégios e escolas particulares para a população pobre? Afinal a obrigação dos nossos governos é dar escola básica de qualidade para os estudantes. Neste caso lhe parece mais justa a cota? Pois não é.

Não podemos ter o pensamento “pra quem tem grana”, “pra quem é negro”, “pra quem é homem”. É o mesmo que aceitar a sociedade de privilégios. E onde há privilégios não há respeito pelos direitos universais do cidadão. A educação básica (de qualidade) é um direito universal que nos é privado. Vamos exigir políticas para educação de base antes de pensar da superior.

Nem tudo o que pode ser contado, conta

A nota não costuma ser vista como avaliação do professor, mas sempre do aluno.

Lendo alguns posts na blogosfera sobre o papel das notas escolares como instrumento de avaliação do conhecimento do aluno, resolvi também conversar.

O tema, que foi despertado pelo Sergio Lima após ler o texto do colunista Stephen Kanitz, foi comentado pelo Rafael Slonik e pelo Sergio Tucano. Isso merece um debate longo, mas de cara, o que todos nós concordamos é que “nem tudo o que pode ser contado, conta”. Ou seja: a nota nem sempre “avalia” o aluno.

A avaliação está enraizada em nossa cultura - em todos os aspectos, não só na escola. A nota é vista por Kanitz e por vários pesquisadores como uma forma autoritária de impor a necessidade do estudo, uma ameaça para o aluno. O interessante é que a nota não costuma ser vista como avaliação do professor, mas sempre do aluno.

Lendo esses textos, só consigo me lembrar de um ensaio chamado “A produção do fracasso escolar” (PATTO, M.H.S.), que uma pesquisadora vai a casa de crianças que sofreram mais de duas reprovações na mesma série. Em todos os casos relatados nesse ensaio, as escolas classificaram as crianças como portadoras de “inteligência abaixo da média para a idade”, simplesmente porque o aluno não atingiu as notas médias da turma.

Então, a pesquisadora ia até a casa das crianças e em poucas visitas percebia como eram completamente normais e muito inteligentes. Ser reprovado para essas crianças não significava somente perder os amigos que passavam de ano. Era também ser humilhado diante dos colegas quando os próprios professores falavam dele como uma criança “burra”, um caso perdido. Tido como “burro” por todos, a criança certamente se enxerga como menos inteligente do que os outros.

Observem como não era só a nota que acabava com a auto-estima dos pequenos, era também a ignorância dos próprios professores que ensinavam aquele aluno.

A criança, tirada do seu dia-a-dia de brincadeiras e descobertas, é colocada entre quatro paredes e uma lousa e é obrigada sentir interesse nas matérias escolares. Um texto muito interessante da psicóloga Jan Hunt - que me emprestou também o título deste post - ilustra bem o papel da nota nas escolas:

“Notas baixas podem ser conseqüência de vários fatores fora do controle da criança, tais como a apreciação subjetiva negativa de um professor, a incapacidade da escola de dar conta de diferenças individuais, situações familiares perturbadoras, provas com perguntas mal formuladas e concepções erradas sobre o que sejam matérias importantes. As notas deveriam ter um sentido informativo. A informação mais útil que se pode extrair delas é se o método de ensino usado pelo professor é o mais adequado para o atual interesse e estilo de aprendizado de cada criança em particular.”

> extraído de The Natural Child Project

Quem pode estudar aqui?

USP cria programa de inclusão para alunos egressos de escola pública.

Da série “medidas para esconder o sol com a peneira”, a USP aprovou uma mudança no vestibular deste ano que acrescenta 3% na pontuação do aluno que cursou o ensino médio em rede pública.

Sou contra cotas de qualquer tipo. Sou a favor de oportunidades iguais, de ensino básico de qualidade para todos. Mas o Brasil respira o culto ao bacharel. O culto ao bacharel é pensar que ter um diploma universitário vai aumentar as chances da pessoa ter um trabalho. Leia bem: chegamos ao ponto de precisar ter um curso superior para ter um emprego. E o que fazemos? No lugar de exigir ensino básico gratuito que qualifique a pessoa, uma escola digna que prepare a população, olhamos lá para a ponta do iceberg e pedimos: cotas já! Como se isso fosse diminuir as desigualdades sociais. 

Dar cotas é muito mais fácil do que resolver o problema da qualidade do ensino. Uma canetada implementa a cota. Rever o ensino básico e gratuito é um caminho muito longo, de muitos governos…

Gostei muito da forma que Lino Resende colocou em seu blog esse assunto. Nos textos “Inversão de prioridades” e “Uma mudança de visão” ele mostra como estamos dando voltas sem sair do lugar com essas medidas.

Teatro na cesta básica

Assisti ontem pela segunda vez o show do Juca Chaves chamado “O Rei Está Nu“. Além do show do Juca ser ótimo, me deparei com uma idéia interessantíssima - o teatro era no supermercado. Sim! Imagine você, fazendo suas comprinhas e resolve ir ao teatro dentro do supermercado. Finalmente uma boa idéia para baratear os custos de uma peça e tornar o teatro popular.

Aqui em São Paulo temos supermercados monstruosos de tão grandes. Só na avenida Ricardo Jaffet você encontra 3 imensos e sempre lotados. E por que não aproveitar um espaço desses para montar um auditório, sem muito luxo, o suficiente para assistir um bom espetáculo? Da primeira vez que assisti o show de Juca foi no Teatro Cultura Artística. O ingresso na época custou o dobro do valor que eu paguei ontem.  Um teatro comum aqui em São Paulo deve ter um alto custo por causa do tempo ocioso, já que as peças acontecem basicamente sexta, sábado e domingo.

No shopping Pátio Higienópolis está o teatro Folha e acontece algo parecido. Você vai até lá para fazer uma comprinha ou jantar e tem esperando você uma peça de teatro custando quase o mesmo que um ingresso de cinema. Tomara que a moda pegue.

Quem quiser ver o show do Juca, ele está no Teatro Juca, no Extra Supermercado, rua João Cachoeira, 899.

Exame curva de rio

Apenas 13% dos 22.197 bacharéis inscritos na primeira na primeira fase do exame da OAB-SP foram aprovados.

Depois de dias e dias sem escrever - férias :-) - estava buscando um tema interessante. E tema não faltou, claro. Ai, entre um ataque e outro do PCC a São Paulo, vem a notícia de que apenas 13% dos advogados que prestaram o exame da OAB-SP foram aprovados na primeira fase. Deu até desânimo.

Apenas 13% dos 22.197 bacharéis inscritos na primeira fase do 129º Exame de Ordem da seccional paulista da OAB foram aprovados. O resultado é parecido com o obtido no Exame 126, quando apenas 12% passaram pela primeira fase, um dos piores já obtidos na história da prova.

Lembrando que temos dezenas de carreiras possíveis em graduação, fico pensando: será que esse número se estende a todas as habilitações? Aposto que teríamos esse desempenho médio se outros cursos fossem avaliados.

E claro, mais uma vez, vemos esses dados absurdos e continuamos quietinhos.

No ano passado, vimos também um outro resultado pífio dos estudantes de direito. E o que fizeram as universidades? Aqui em São Paulo, uma delas teve coragem de fazer uma propaganda comemorativa que veiculou em diversas revistas e canais de TV dizendo: “60% dos estudades aprovados no exame da OAB-SP”.

Como assim uma universidade festeja 60% de alunos aprovados no exame? E os outros 40% que também pagaram mensalidade, o que aconteceu com eles? 40% é um número muito alto para ser deixado na fatia do “índice desprezível”.

Finalmente vemos que os alunos estão sozinhos, não existe sequer um orgão para controlar a qualidade dessas faculdades caça-níqueis. Então, aluno, entre na faculdade, esforce-se para pagar 40 mil reais por um curso, pagar por livros caros, por transporte e no final arrisque-se num exame que vai avaliar coisas que você não domina, embora a faculdade tenha te dado um diploma que garante que você é um advogado. Pelo menos, use seu diploma para processar a sua faculdade.

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