Nem tudo o que pode ser contado, conta
segunda-feira, maio 29, 2006 16:43Lendo alguns posts na blogosfera sobre o papel das notas escolares como instrumento de avaliação do conhecimento do aluno, resolvi também conversar.
O tema, que foi despertado pelo Sergio Lima após ler o texto do colunista Stephen Kanitz, foi comentado pelo Rafael Slonik e pelo Sergio Tucano. Isso merece um debate longo, mas de cara, o que todos nós concordamos é que “nem tudo o que pode ser contado, conta”. Ou seja: a nota nem sempre “avalia” o aluno.
A avaliação está enraizada em nossa cultura - em todos os aspectos, não só na escola. A nota é vista por Kanitz e por vários pesquisadores como uma forma autoritária de impor a necessidade do estudo, uma ameaça para o aluno. O interessante é que a nota não costuma ser vista como avaliação do professor, mas sempre do aluno.
Lendo esses textos, só consigo me lembrar de um ensaio chamado “A produção do fracasso escolar” (PATTO, M.H.S.), que uma pesquisadora vai a casa de crianças que sofreram mais de duas reprovações na mesma série. Em todos os casos relatados nesse ensaio, as escolas classificaram as crianças como portadoras de “inteligência abaixo da média para a idade”, simplesmente porque o aluno não atingiu as notas médias da turma.
Então, a pesquisadora ia até a casa das crianças e em poucas visitas percebia como eram completamente normais e muito inteligentes. Ser reprovado para essas crianças não significava somente perder os amigos que passavam de ano. Era também ser humilhado diante dos colegas quando os próprios professores falavam dele como uma criança “burra”, um caso perdido. Tido como “burro” por todos, a criança certamente se enxerga como menos inteligente do que os outros.
Observem como não era só a nota que acabava com a auto-estima dos pequenos, era também a ignorância dos próprios professores que ensinavam aquele aluno.
A criança, tirada do seu dia-a-dia de brincadeiras e descobertas, é colocada entre quatro paredes e uma lousa e é obrigada sentir interesse nas matérias escolares. Um texto muito interessante da psicóloga Jan Hunt - que me emprestou também o título deste post - ilustra bem o papel da nota nas escolas:
“Notas baixas podem ser conseqüência de vários fatores fora do controle da criança, tais como a apreciação subjetiva negativa de um professor, a incapacidade da escola de dar conta de diferenças individuais, situações familiares perturbadoras, provas com perguntas mal formuladas e concepções erradas sobre o que sejam matérias importantes. As notas deveriam ter um sentido informativo. A informação mais útil que se pode extrair delas é se o método de ensino usado pelo professor é o mais adequado para o atual interesse e estilo de aprendizado de cada criança em particular.”
Rafael Slonik says:
maio 29th, 2006 at 4:51 pm
Lendo o que você escreveu me lembrei da Teoria das Inteligências Múltiplas. Não existe somente uma forma de ser inteligente, sendo assim é impossível medir inteligência, seja com testes de QI ou notas escolares.
Sérgio Lima says:
maio 29th, 2006 at 5:25 pm
Olá Débora!
Muito interessante sua abordagem, e destaca a complexidade da questão. É claro que por debaixo do capô desta questão existem muitas outras questões, de complexidades variadas.
É assunto para vários posts
Legal também pela biblografia 
abraços
carzakino says:
maio 30th, 2006 at 1:07 pm
Sou péssimo em notas.
Notas são coisas teóricas.
Eu sou ótimo na prática.
sergio issamu says:
maio 31st, 2006 at 10:59 am
Sem falar que o sistema de provas é um fiasco total. Dar trabalhos escritos, onde a pessoa pode copiar e colar é uma coisa grotesca.
Quando criança minha média era 10, sim, tirava 10 em todos os bimestres, não em todas as matérias, mas nas principais. Mas naquela época eram questões que você podia simplesmente decorar e repassar na hora da prova pois eram as mesmas questões. Não significava nada pra mim.
Aprendi muito mais nas aulas de geografia que o professor pedia para desenhar mapas e nas aulas de história onde o professor literalmente contava histórias.
Assim como existe conselho de classe para avaliação dos alunos, deveria haver conselho de classe para avaliação dos professores.
Além disso as aulas não deveriam se restringir apenas aos livros. A vida ai fora exige muito mais prática do que teoria. O sistema de notas cria uma disputa entre os estudantes quando na verdade deveria criar um clima de união, onde as pessoas aprendessem a se relacionar com os mais diferentes tipos de indíviduos.
Nossa esse comentário daria um post.