Quem quer ser professor?

Ontem foi o dia dos professores. Há quem não reconheça a imensa responsabilidade de um profissional desses. Fala-se muito da responsabilidade de outras profissões, como médicos, engenheiros, por exemplo. Não desmerecendo ninguém, é o professor o responsável pela formação de um cidadão, como você, que pode ler um texto como este.

Formar um cidadão, passar uma visão de mundo, deve ser um peso incrível sobre os ombros daqueles que têm essa função. Vai muito além de ensinar o be-a-bá.

Faz uns três meses que vejo notícias falando da falta de docentes no ensino básico estampadas em vários veículos.

professor

“Mais de 70% dos formados em Licenciatura no País não trabalham como professores nas escolas brasileiras. [...]

A valorização da profissão [de professor] minguou com a expansão de estudantes nas escolas públicas brasileiras na última década. Em julho, o Conselho Nacional de Educação (CNE) chegou a divulgar um estudo que falava em apagão de professores, já que o País teria uma déficit de 246 mil profissionais. [...]

‘A responsabilidade em trabalhar com crianças é muito grande e a remuneração é baixa’, diz profissional que atua como personal trainner. ‘Além disso, na academia somos mais respeitados’.” Estadão - 15/10

E você, professor, como incentivaria um jovem a ingressar nesta profissão?

Quem te ensinou a gostar de ler?

Respondendo a pergunta do post Semana de Livros e Leitores - 1, no blog Leitura e Escrita na Escola:

E você, como se tornou um leitor? Já pensou sobre isto? Conte aí.

Quero parabenizar a Fátima pelo texto que me emocionou. Em primeiro lugar porque ela contou uma história bonita demais, em segundo porque me identifiquei, lembrando que são as pessoas ao redor que nos estimulam a curiosidade.

Vamos à resposta:

Tinha oito anos de idade. Odiava ler. Achava os livros que a “tia” indicava muito chatos. Lembro que detestava particularmente os livros daquelas coleções de Pedro Bandeira, “A droga do amor“, “A droga da obediência“. Explico - a turma d’Os Karas, crianças de 10 anos prendendo traficantes nunca me desceu bem. Eu era realista, tinha oito anos, mal pilotava uma bike, imagine se eu teria capacidade de prender bandidos?! Quero deixar claro que muitos coleguinhas meus vibravam com os livros. Portanto, sentir-me imbecil diante daqueles livros era um problema meu!

Um belo dia, aos 11 anos, eu estava na casa da minha tia. Enquando ela e minha mãe conversavam na cozinha, folheei um livro de Lygia Fagundes Telles que estava na mesa de centro da sala. Era a coletânea de contos “Antes do Baile Verde“. Comecei justamente pelo conto “Venha ver o pôr-do-sol”. Esse texto me trouxe a esperança que havia literatura feita para mim. Li um conto após o outro, foi um alumbramento… :-) Meu coração ficava na garganta. Finalmente! Pessoas reais, histórias reais! Descobri naquela época o que é até hoje a minha leitura favorita - contos realistas.

Perguntei na manhã seguinte para minha mãe o que ela poderia me indicar do mesmo gênero. Estava restrita ao que as pessoas indicassem. Queria viver cercada de livros que contassem histórias que poderiam ser minhas. E li mais e mais Lygia, li Clarice, li Machado. Na oitava série, descobri Guimarães e Mário de Andrade. E nunca mais parei de ler, seja bula de remédio, panfleto, bilhetinho, scrap no orkut, jornal, revista, blogs, sites, livros técnicos, livros de literatura, livros de fotografias…

Descobri tarde o gosto pela leitura, por isso gasto horas e horas do meu dia lendo, para recuperar o tempo perdido. ;-)

Não dá para ensinar ninguém a amar um livro, uma música, um quadro, uma peça. A falta de estímulo e o direcionamento errado podem condenar qualquer pessoa a detestar física, matemática, geografia. Não seria diferente com a literatura.

E você, como se tornou um leitor? Já pensou sobre isto? Conte aí.

Redação na escola: incentive o aluno a pensar

Quem nunca recebeu uma redação (escolar ou não) vazia de significado e que, ao terminar a leitura, não foi capaz de entender o que o autor quis dizer? Você, que presumiu que os alunos soubessem se expressar por texto, agora tomou esse susto. Recebeu um monte de palavras no papel. Como fazer o estudante recuperar/adquirir a capacidade de discursar pela escrita?

Vamos pensar nos grandes escritores. Camões pediu às ninfas do rio Tejo (as Tágides) que elas o ajudassem na empreitada de cantar as glórias de seu povo. “Cantando espalharei por toda parte/Se a tanto me ajudar o engenho e arte”, disse o poeta no Canto I de Os Lusíadas. Arte não é todos que podem, mas engenho é pra quem quer. Escrever é um trabalho duro de revisão, reescrita, reestruturação de texto. É incrível como ainda tem gente que pensa que escrever é APENAS sentar-se diante de uma folha de papel e “deixar a imaginação solta”.

Hoje, o principal problema apresentado em redações escolares pode ser resumido assim: o aluno não sabe pensar o texto como uma conversa. E o erro está no modo que a redação foi um dia introduzida em sua vida. Quem nunca ouviu a professora orientar a divisão da redação “Introdução/Desenvolvimento/Conclusão”? Sem explicar o por quê da famosa fórmula, as regras tornaram-se engessadoras da produtividade.

Seria mais fácil mostrar ao aluno que a redação é discurso, conversa, é necessário apresentar uma idéia e debatê-la com leitor. E para isso é preciso reescrever muitas vezes um texto, ter [algum] conhecimento no assunto debatido, lê-lo em voz alta, apresentar para que outra pessoa o leia e aponte o que não ficou claro. No final das contas, ensinar o aluno a argumentar é o mesmo que ensiná-lo a PENSAR!

E olha que tem gente que perde tempo pensando que o “miguxês*” é o maior problema das nossas redações. (*miguxês - linguagem usada para comunicação informal em chats, orkut, bilhetinhos; escrita que utiliza sons da língua portuguesa. ex. “miguxo amu todos vo6! beijaum! s2″.)

Durante esse mês e o próximo vou publicar no blog resenhas de livros que são referência no assunto Redação Escolar. Eu sei que há muitos livros mais recentes sobre o mesmo tema, mas esses selecionados são alguns dos autores que realmente leram e entenderam os grandes filósofos da linguagem, como Saussure, Bakhtin entre outros.

Quem quiser se adiantar para o debate, os livros são:

Problemas de Redação - Pecora, Alcir

A Redação na Escola - Franchi, Egle Pontes

Como um romance - Pennac, Daniel

Das Cotas

Onde os direitos dos cidadãos são respeitados não se fala de cotas ou privilégios.

Cotas nas Universidades de novo. Li manifestações em blogs sobre a notícia “46% dos cotistas zeram em vestibular“.

Para quem quiser seguir a discussão, o Tupi na Taba mostra uma entrevista publicada no Estadão com o economista Marcelo Paixão, que é a favor de cotas. E o blog do Jônatas também se manifestou sobre o assunto.

Todos os cidadãos têm o mesmo direito de freqüentar a universidade pública e gratuita, afinal “ricos” e “pobres” pagam os impostos que sustentam essas instituições. O ingresso nessas universidades é feito por provas, e ganha a vaga quem acerta mais perguntas. Um aluno elimina o outro.

Se as poucas vagas das Universidades Públicas são ocupadas por alunos vindos das escolas particulares - que abrigam a menor parte dos estudantes do país - algo está errado, e certamente não é com o vestibular.

No post do Cris Dias - que declarou ser avesso as cotas - li o seguinte comentário, feito por Carlos Aquino: “Faculdade Pública para Alunos da rede pública.
Faculdade Particular para quem tem grana.”

Se o sistema de educação fundamental e de ensino médio oferecido pelo governo está FALIDO - falar de cotas prova que temos um sistema de educação falido, que não prepara o aluno para ingressar em um curso superior-, por que não abortar essa discussão sobre cotas em universidades e PEDIR cotas em colégios e escolas particulares para a população pobre? Afinal a obrigação dos nossos governos é dar escola básica de qualidade para os estudantes. Neste caso lhe parece mais justa a cota? Pois não é.

Não podemos ter o pensamento “pra quem tem grana”, “pra quem é negro”, “pra quem é homem”. É o mesmo que aceitar a sociedade de privilégios. E onde há privilégios não há respeito pelos direitos universais do cidadão. A educação básica (de qualidade) é um direito universal que nos é privado. Vamos exigir políticas para educação de base antes de pensar da superior.

Nem tudo o que pode ser contado, conta

A nota não costuma ser vista como avaliação do professor, mas sempre do aluno.

Lendo alguns posts na blogosfera sobre o papel das notas escolares como instrumento de avaliação do conhecimento do aluno, resolvi também conversar.

O tema, que foi despertado pelo Sergio Lima após ler o texto do colunista Stephen Kanitz, foi comentado pelo Rafael Slonik e pelo Sergio Tucano. Isso merece um debate longo, mas de cara, o que todos nós concordamos é que “nem tudo o que pode ser contado, conta”. Ou seja: a nota nem sempre “avalia” o aluno.

A avaliação está enraizada em nossa cultura - em todos os aspectos, não só na escola. A nota é vista por Kanitz e por vários pesquisadores como uma forma autoritária de impor a necessidade do estudo, uma ameaça para o aluno. O interessante é que a nota não costuma ser vista como avaliação do professor, mas sempre do aluno.

Lendo esses textos, só consigo me lembrar de um ensaio chamado “A produção do fracasso escolar” (PATTO, M.H.S.), que uma pesquisadora vai a casa de crianças que sofreram mais de duas reprovações na mesma série. Em todos os casos relatados nesse ensaio, as escolas classificaram as crianças como portadoras de “inteligência abaixo da média para a idade”, simplesmente porque o aluno não atingiu as notas médias da turma.

Então, a pesquisadora ia até a casa das crianças e em poucas visitas percebia como eram completamente normais e muito inteligentes. Ser reprovado para essas crianças não significava somente perder os amigos que passavam de ano. Era também ser humilhado diante dos colegas quando os próprios professores falavam dele como uma criança “burra”, um caso perdido. Tido como “burro” por todos, a criança certamente se enxerga como menos inteligente do que os outros.

Observem como não era só a nota que acabava com a auto-estima dos pequenos, era também a ignorância dos próprios professores que ensinavam aquele aluno.

A criança, tirada do seu dia-a-dia de brincadeiras e descobertas, é colocada entre quatro paredes e uma lousa e é obrigada sentir interesse nas matérias escolares. Um texto muito interessante da psicóloga Jan Hunt - que me emprestou também o título deste post - ilustra bem o papel da nota nas escolas:

“Notas baixas podem ser conseqüência de vários fatores fora do controle da criança, tais como a apreciação subjetiva negativa de um professor, a incapacidade da escola de dar conta de diferenças individuais, situações familiares perturbadoras, provas com perguntas mal formuladas e concepções erradas sobre o que sejam matérias importantes. As notas deveriam ter um sentido informativo. A informação mais útil que se pode extrair delas é se o método de ensino usado pelo professor é o mais adequado para o atual interesse e estilo de aprendizado de cada criança em particular.”

> extraído de The Natural Child Project

Next Page »

Close
E-mail It