Li um artigo na Gazeta Mercantil, chamado “A dimensão da cultura no Brasil” (23/10), que me deixou um pouco assustada.
O texto me fez pensar como as pessoas disseminam “fatos” de veracidade duvidosa. E o pior: com apoio de grandes veículos de comunicação.
A autora Maria Fernanda Teixeira está reclamando da qualidade da educação no Brasil. Até aí, nenhuma novidade.
“A cultura tem diminuido, não há dúvida sobre isso. A grande maioria dos jovens de hoje já não lê e está passando por uma profunda mudança de paradigmas. Pouco ou quase nada se cria, a literatura já não é o ponto de partida do conhecimento. Além disso há uma crescente onda de analfabetismo funcional, que afasta as pessoas do conhecimento”.
A menos que a autora tenha passado os últimos trinta anos na Suíça, não sei a razão do espanto. Da mesma forma não entendo como é possível dizer que o Brasil passa por uma crescente onda de analfabetismo funcional. No entanto, de acordo com o censo, a “onda de analfabetismo funcional” está bem pequenininha, se compararmos os números das últimas cinco décadas.
A minha parte favorita do texto é quando Teixeira afirma o seguinte:
“O hábito de ler poesia, tão popular entre o meio do século XIX e o meio do século XX, praticamente desapareceu nos dias atuais.”
Vamos pensar, com auxílio da tabela abaixo, retirada do texto de Alceu Ravanello Ferraro, “Analfabetismo e níveis de letramento no Brasil: O que dizem os censos?”
Ano - Brasileiros analfabetos com 15 anos ou mais
1920 - 64,9%
1940 - 55,9%
1950 - 50,5%
Entre 1850 e 1950, saber ler não era popular. Quanto mais ler poesia. Definitivamente, a ler de poesia jamais foi um hábito popular no Brasil.
Claro que não estou escrevendo este post para louvar a maravilhosa educação que o Brasil oferece a seus pequenos. É só para lembrar que muitas vezes as mídias não contribuem em nada para elevar o grau de conhecimento das pessoas. Inclusive ajudam a criar PRECONCEITOS, como os que foram distribuídos neste texto, dizendo que hoje as pessoas têm menos cultura que antigamente, lêem menos que antigamente, ler livro de auto-ajuda empobrece a cultura…
Seria interessante que as grandes mídias abrissem espaço para discussões mais ricas e melhor fundamentadas, que oferecessem para as pessoas uma nesga de luz sobre o eterno debate a respeito da qualidade da educação brasileira.
Share This