Por que ensinar o alfabeto fonético

Lendo o post da Fátima, em Leitura e Escrita na Escola, vi que uma quadrilha foi apreendida porque cometeu um erro de ortografia. Foi então que a professora Fátima propôs para os professores criarem com seus alunos uma lista “como se fala x como se escreve”. 

Caracteres que representam todos os sons de vogais

Uma outra idéia que complementaria a lista proposta pela Fátima, é ensinar o alfabeto fonético para os alunos. Isso ajuda a aprender as variações fonéticas entre as regiões ou cidades e compreender porque falamos de um jeito e escrevemos de outro. Ao fazer isso, contribuimos para quebrar o preconceito linguístico, porque fica claro que todos os grupos sociais e regiões do país têm seu “sotaque”.

Um exercício legal, que não necessita de conhecimento formal do alfabeto fonético por parte do aluno, é utilizar músicas antigas para analisar a pronúncia dos cantores. Por exemplo, Dalva de Oliveira, uma cantora nascida em 1917, quando gravou a música “Máscara Negra”, em 1967, pronunciava o “L” de forma mais acentuada que hoje em dia. Porém, não mudamos a ortografia da palavra MIL por “miu”.

O alfabeto fonético é importante inclusive para o ensino de uma língua estrangeira, porque nos ajuda a “ouvir” e reproduzir melhor os sons que não pertencem a nossa língua.

Redação na escola: incentive o aluno a pensar

Quem nunca recebeu uma redação (escolar ou não) vazia de significado e que, ao terminar a leitura, não foi capaz de entender o que o autor quis dizer? Você, que presumiu que os alunos soubessem se expressar por texto, agora tomou esse susto. Recebeu um monte de palavras no papel. Como fazer o estudante recuperar/adquirir a capacidade de discursar pela escrita?

Vamos pensar nos grandes escritores. Camões pediu às ninfas do rio Tejo (as Tágides) que elas o ajudassem na empreitada de cantar as glórias de seu povo. “Cantando espalharei por toda parte/Se a tanto me ajudar o engenho e arte”, disse o poeta no Canto I de Os Lusíadas. Arte não é todos que podem, mas engenho é pra quem quer. Escrever é um trabalho duro de revisão, reescrita, reestruturação de texto. É incrível como ainda tem gente que pensa que escrever é APENAS sentar-se diante de uma folha de papel e “deixar a imaginação solta”.

Hoje, o principal problema apresentado em redações escolares pode ser resumido assim: o aluno não sabe pensar o texto como uma conversa. E o erro está no modo que a redação foi um dia introduzida em sua vida. Quem nunca ouviu a professora orientar a divisão da redação “Introdução/Desenvolvimento/Conclusão”? Sem explicar o por quê da famosa fórmula, as regras tornaram-se engessadoras da produtividade.

Seria mais fácil mostrar ao aluno que a redação é discurso, conversa, é necessário apresentar uma idéia e debatê-la com leitor. E para isso é preciso reescrever muitas vezes um texto, ter [algum] conhecimento no assunto debatido, lê-lo em voz alta, apresentar para que outra pessoa o leia e aponte o que não ficou claro. No final das contas, ensinar o aluno a argumentar é o mesmo que ensiná-lo a PENSAR!

E olha que tem gente que perde tempo pensando que o “miguxês*” é o maior problema das nossas redações. (*miguxês - linguagem usada para comunicação informal em chats, orkut, bilhetinhos; escrita que utiliza sons da língua portuguesa. ex. “miguxo amu todos vo6! beijaum! s2″.)

Durante esse mês e o próximo vou publicar no blog resenhas de livros que são referência no assunto Redação Escolar. Eu sei que há muitos livros mais recentes sobre o mesmo tema, mas esses selecionados são alguns dos autores que realmente leram e entenderam os grandes filósofos da linguagem, como Saussure, Bakhtin entre outros.

Quem quiser se adiantar para o debate, os livros são:

Problemas de Redação - Pecora, Alcir

A Redação na Escola - Franchi, Egle Pontes

Como um romance - Pennac, Daniel

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