Culto ao bacharelado

Hoje tive a chance de ver um vídeo de uma entrevista realizada no programa de Ana Maria Braga, publicado no Blog da Formação.

O papo do escritor e educador Rubem Alves com Ana Maria Braga é sobre o por quê que somos tão apegados a idéia do diploma universitário para “sermos alguém na vida“.

[video]http://www.youtube.com/watch?v=xn9iGOKEC9c[/video]

O papel da riqueza econômica na vida escolar dos jovens

A professora da UFMG Maria Alice Nogueira fez uma pesquisa que vai contra a corrente do que dizem as pessoas (coisas maravilhosas acontecem quando alguém coloca à prova o senso comum) e em lugar de produzir mais um estudo sobre o fracasso escolar da população pobre, investigou se havia fracasso escolar entre alunos cujos pais são médios e grandes empresários em Minas Gerais.

No imaginário popular, as universidades públicas têm suas vagas preenchidas pelos “ricos”, graças à equação: Boas escolas particulares + apoio financeiro = maior oportunidade de ingressar em uma Universidade Pública.

O artigo Favorecimento Econômico e excelência escolar: um mito em questão fez a prova dos nove. Investigando a trajetória escolar de 23 estudantes entrevistados, a professora Maria Alice Nogueira descobriu:

Um pouco mais da metade do grupo investigado sofreu alguma reprovação ao longo da escolaridade básica (ensino fundamental e médio). Mais precisamente, 13 jovens foram afetados, perfazendo juntos um total de 19 reprovações.

[...] A defasagem acumulada no percurso não impedirá, no entanto, os jovens em atraso de ingressar no ensino superior. [...] Além disso, há também o fato de que a escolha da instituição de ensino superior recai sobre instituições privadas que se caracterizam por praticarem exames vestibulares menos seletivos e, na maior parte, pouco exigentes.

[...] Com relação especificamente ao vestibular da UFMG, 7 três quartos dos jovens tentaram (quase sempre, uma única vez), mas não obtiveram aprovação nesse vestibular. Quanto ao quarto restante, é razoável supor que, diante do alto grau de competitividade, jovens com preparo insuficiente, ou que assim se sintam, não se candidatam a esse exame vestibular.

A autora ainda complementa o dado com um estudo realizado por Simon Schwartzman, em 2004, com base nos dados do IBGE, prova que o estudantado do ensino superior privado apresenta renda familiar superior à do estudantado da rede pública.

O artigo também revela que 17 dos 25 jovens entrevistados exerciam atividade remunerada desde os 18 anos, e estavam matriculados nos cursos noturnos porque conciliavam trabalho e estudo.

Aviso de curso: Comunicação, Educação e Multimídia na FEUSP

Quem quer saber o que é discutido em sala de aula sobre o tema Comunicação, Educação e Multimídia, a USP oferece essa disciplina todas as quintas-feiras, das 14h às 17h, na Faculdade de Educação.

Pelo que vi, a matéria já atingiu o número máximo inscritos, mas todo mundo sabe que é perfeitamente possível assistir aulas sem ser matriculado na USP. Basta conversar com o professor e quando ele perceber seu interesse certamente não vai te deixar de fora da classe.

Corra, porque as aulas já começaram dia 8.

Das Cotas

Onde os direitos dos cidadãos são respeitados não se fala de cotas ou privilégios.

Cotas nas Universidades de novo. Li manifestações em blogs sobre a notícia “46% dos cotistas zeram em vestibular“.

Para quem quiser seguir a discussão, o Tupi na Taba mostra uma entrevista publicada no Estadão com o economista Marcelo Paixão, que é a favor de cotas. E o blog do Jônatas também se manifestou sobre o assunto.

Todos os cidadãos têm o mesmo direito de freqüentar a universidade pública e gratuita, afinal “ricos” e “pobres” pagam os impostos que sustentam essas instituições. O ingresso nessas universidades é feito por provas, e ganha a vaga quem acerta mais perguntas. Um aluno elimina o outro.

Se as poucas vagas das Universidades Públicas são ocupadas por alunos vindos das escolas particulares - que abrigam a menor parte dos estudantes do país - algo está errado, e certamente não é com o vestibular.

No post do Cris Dias - que declarou ser avesso as cotas - li o seguinte comentário, feito por Carlos Aquino: “Faculdade Pública para Alunos da rede pública.
Faculdade Particular para quem tem grana.”

Se o sistema de educação fundamental e de ensino médio oferecido pelo governo está FALIDO - falar de cotas prova que temos um sistema de educação falido, que não prepara o aluno para ingressar em um curso superior-, por que não abortar essa discussão sobre cotas em universidades e PEDIR cotas em colégios e escolas particulares para a população pobre? Afinal a obrigação dos nossos governos é dar escola básica de qualidade para os estudantes. Neste caso lhe parece mais justa a cota? Pois não é.

Não podemos ter o pensamento “pra quem tem grana”, “pra quem é negro”, “pra quem é homem”. É o mesmo que aceitar a sociedade de privilégios. E onde há privilégios não há respeito pelos direitos universais do cidadão. A educação básica (de qualidade) é um direito universal que nos é privado. Vamos exigir políticas para educação de base antes de pensar da superior.

Quem pode estudar aqui?

USP cria programa de inclusão para alunos egressos de escola pública.

Da série “medidas para esconder o sol com a peneira”, a USP aprovou uma mudança no vestibular deste ano que acrescenta 3% na pontuação do aluno que cursou o ensino médio em rede pública.

Sou contra cotas de qualquer tipo. Sou a favor de oportunidades iguais, de ensino básico de qualidade para todos. Mas o Brasil respira o culto ao bacharel. O culto ao bacharel é pensar que ter um diploma universitário vai aumentar as chances da pessoa ter um trabalho. Leia bem: chegamos ao ponto de precisar ter um curso superior para ter um emprego. E o que fazemos? No lugar de exigir ensino básico gratuito que qualifique a pessoa, uma escola digna que prepare a população, olhamos lá para a ponta do iceberg e pedimos: cotas já! Como se isso fosse diminuir as desigualdades sociais. 

Dar cotas é muito mais fácil do que resolver o problema da qualidade do ensino. Uma canetada implementa a cota. Rever o ensino básico e gratuito é um caminho muito longo, de muitos governos…

Gostei muito da forma que Lino Resende colocou em seu blog esse assunto. Nos textos “Inversão de prioridades” e “Uma mudança de visão” ele mostra como estamos dando voltas sem sair do lugar com essas medidas.

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